Se Brazilian Voodoo Exportation (2018) fosse tinta em tela, seria uma obra abstrata. Um respiro nos padrões pré estabelecidos da música pop e uma fuga dos labirintos que a indústria musical instituiu por décadas, engessando a liberdade artística. Assim, em tons amplos e viscerais, o duo de música instrumental Mescalines chega ao segundo álbum da carreira. O lançamento marca a parceria com o selo candango Quadrado Mágico, que tem como mote o registro de sonoridades psicodélicas e nada óbvias.

A música é um caminho para a liberdade, e a dupla formada por Jack Rubens (Mustache e os Apaches) e Mariô Onofre sabe valorizá-lo. “Não precisamos de 3 acordes e um refrão. Nem mesmo executar uma música da mesma maneira diversas vezes. É um campo etéreo onde o ouvinte pode interpretar nosso som das maneiras mais sensoriais possíveis”, comentam os Mescalines. Nessa jornada o segundo disco vem como um guia transcendental, com guitarras e tambores que – aliados a uma sonoridade medial e de cores vivas – parecem ter vida própria.

“É esse espírito que tentamos captar no estúdio: temos temas e overdubs, sim, mas um dos nossos pontos fortes é quando soltamos as rédeas e produzimos temas durante sessões de improviso.”

Abrindo o álbum, “Z” busca um homem livre. A guitarra poderia estar na trilha sonora de Dead Man (Jim Jarmusch, 1995), composta por Neil Young. A ela somam-se tambores xamânicos, bateria e guitarras sintetizadas. Na sequência, “Rimbaud” é um convite para olhar um céu estrelado sob inspiração de guitarras mouras e poetas. O disco segue com o quê egípcio de “Ave Sonora”, caminha rumo à terra prometida em “Diáspora” e flerta com o início do blues e do jazz em “Homem Chuva”.

“Jacaré”, um jeito bem brasileiro de pegar onda, dá o toque nacional à sonoridade de referências continentais que perpassa a carreira dos Mescalines. “Samba de Essaouira” segue a mesma linha, num misto de música Gnawa do Marrocos e samba. “Travesseiro de Nuvens”, um estímulo à preguiça, retoma as nuances orientais da disco. “Zarabatan” chega com seus riffs inspirados pela discoteca da Nigéria anos 70, sucedida pelo experimentalismo de “À Deriva”. “Pássaro Vermelho III” encerra com álbum mostrando que o minimalismo pode ser bastante poderoso.

Como toda obra aberta, Brazilian Voodoo Exportation é um disco para ser experienciado diversas vezes e de diferentes formas. Sem pressa, como um quadro de Kandinsky, um filme do Jarmusch ou um passeio por vielas desconhecidas.

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